sexta-feira, 29 de agosto de 2008

PÁROCOS DA RIBEIRA QUENTE E SUA ACÇÃO SOCIAL E PASTORAL


Párocos que por aqui passaram:
- Padre António Jacinto de Melo – Natural de Povoação. Paroquiou nesta
freguesia de 1869 a 1876 e depois de 1888 a 1900.- Faleceu nesta freguesia em 20/03/1900.


- Padre Jacinto Moniz Borges – Natural de Vila Franca do Campo.
- Paroquiou durante 16 anos.- Faleceu em Vila Franca do Campo a 16 de Abril de 1916.

- Padre Ângelo de Amaral – Natural de Povoação (Lomba do Alcaide).
- Paroquiou de 29 de Junho de 1916 a 1925.- Construiu a nova Igreja.

- Padre José Luís Borges – Natural de Água de Pau.
- Paroquiou durante o ano de 1930.- Construiu balaustrada à volta da Igreja e paredes para o passal que não chegaram ao fim.

- Padre João de Medeiros – Natural de Povoação.
- Paroquiou de Janeiro de 1931 até Dezembro de 1937.- Obras que efectuou: - Alargamento da sacristia nascente, bancada, cadeirado na capela-mor, guarnecimento de paredes interiores, altar de S. José e de N. Sra. De Fátima.

- Padre Cristovam de Melo Garcia - Natural de Matriz da Ribeira Grande.
- Paroquiou de 1938 até fim de 1939.- Inaugurou a energia eléctrica na Igreja.

- Padre José Jacinto da Costa – Natural de Vila Franca do Campo.
- Paroquiou desde 1-12-1940 até 14 de Setembro de 1955. Foram 15 anos.- Obras que efectuou: Aquisição do passal em 1946, baptistério em 1948 e esticadores de segurança da Igreja. Substituição do forro e telha da Igreja. Adquiriu imagem do Menino Jesus e Santa Filomena. Consertou sinos e adicionou outro encontrado no mar. Actualizou livro do tombo.

- Padre Antero Jacinto de Melo – Natural de Ribeira Quente.- Paroquiou desde 14-09-1955 até 30-07-1959.- Obra efectuada: Quadro em azulejos no baptistério.
- Pastoralmente: Liga Eucarística dos Homens.

- Padre Silvino Amaral – Natural de Povoação.

Paroquiou desde 01-08-1959 até ao presente.
- Obras efectuadas: - 1962 Reparos no passal e cimentado o adro.- 1963 Remodelação da rede eléctrica para 220V.- 1965 Iniciação da pintura e douramento da capela-mor, altares de S. José e do Sagrado Coração de Jesus.- 1967 Aquisição dos 3 lustres da Igreja e seus apliques.- 1968 Construção do salão do lado poente da Igreja, inaugurado campo de pequenos desportos situado por detrás da Igreja e oferta e cedência do terreno ao Mato Barreto para campismo dos Escuteiros.- 1971 Compra do prédio para construção do Centro Social.- 1972 Construção do balcão do Salão para exibição de cinema, com máquina adquirida para o efeito.- 1973 Adquiridas 3 casas destinadas a Sede dos Escuteiros.- 1975 Cobertura geral da Igreja com telha de fibrocimento.- 1978 Construção de Jardim Infantil.- 1994 Inicio de obras de construção do Centro Social.- 1998 Construção de 3 salas de catequese.- 1999 Substituição de todos os sinos e sua automatização electrónica.- 2004 Venda do antigo passal e compra de novo passal- 2005 Restauro de várias imagens e compra de resplendores em prata.- 2006 Restauro do estuque da Igreja, substituído por entabulamento. Pinturas gerais na Igreja no interior e exterior e confecção de rampa de acesso a deficientes.
-Pastoralmente: 1960 Iniciaram-se os Cursos de Preparação para Matrimónio, Baptismo, a Juventude Agrária Católica masculina e feminina.
- 1961 Constituída a Irmandade do Divino Espírito Santo.- 1966 Iniciado o Escutismo com Lobitismo e constituída a Comissão Caritas.- 1969 Exibido teatro paroquial que se foi exibindo ao longo de 3 anos.- 1971Saida do primeiro Rancho de Romeiros da Freguesia. Este perdurou 4 anos consecutivos.- 1977 Constituídos os Conselhos Administrativos Paroquiais e Conselho Paroquial Pastoral.- 2001 Reactivado Rancho de Romeiros que continua.

ANO DE 1959 / PADRE SILVINO AMARAL


Depois de apenas 4 anos como pároco da sua terra natal, a freguesia de São Paulo da Ribeira Quente, o Reverendo Padre Anter Jacinto de Melo é nomeado pela Diocese dos Açores, como Assistente dos Emigrantes Católicos Portugueses no Canadá (açorianos, logicamente).

Para o substituir, foi nomeado pároco da Ribeira Quente, o Reverendo Padre Silvino Amaral, nascido no Lugar do Morro, da Vila da Povoação.

Ordenado presbítero em Angra, a 15 de Junho de 1958, o Padre Silvino celebrou a sua Missa Nova na Igreja Matriz da Vila da Povoação, seu lugar de nascimento, a 29 do mesmo mês e ano.

Frequentou, o Padre Silvino, o Post-Seminário durante o ano lectivo de 1958/59 e, em Julho de 1959, recebeu, de D. Manuel Afonso de Carvalho, a nomeação para paroquiar São Paulo da Ribeira Quente.

Tomou, este então novel sacerdote, posse da paróquia para que fora nomeado, a 1 de Agosto de 1959.

Foi o Padre Antero quem o apresentou ao seu povo.

Durante cerca de 6 meses, o padre substituído ainda permaneceu na Ribeira Quente, na situação de férias, até que depois partiu para a Cidade de Nelson, Canadá.

A herança deixada pelo Padre Antero, ao Padre Silvino, foi composta por um povoado altamente sobrepovoado para a sua pequena dimensão urbana situada entre o mar e a rocha com uma população que continuava a ser pobre e sempre circunscrita aos baixos rendimentos arrancdo ao mar, porque não tinha outra alternativa; um povo que aceitava, como sempre, a sua situação, como algo marcadamente imposto pelo destino.

A pesca continuava a ser, embora já melhorada, apenas um meio de sobrevivência e, os homens do campo, também continuavam a depender de jornas pobres e incertas.

Foi assim, nesta situação de velada pobreza, que este então novo pároco aceitou aquilo que a sua vocação lhe incumbiu. Foi a aceitação de um povo materialmente pobre mas altamente rico em simplicidade, de profunda fé em Deus e seu Senhor São Paulo; um povo que, ao longo da sua história encoberta, sempre deu provas de ser possuidor de uma denodada vontade de trabalhar.

É o próprio Padre Silvino, quem assim descreve este povo no livro "RIBEIRA QUENTE O PASSADO E FUTURO":


"Logo que cheguei à Ribeira Quente - dia 1 de Agosto 1959 - deparei com uma freguesia que oferecia um cenário de abandono, bem expresso nas suas casas de construção pobre, quase todas terreiras, sem quartos de banho, sem saneamento básico geralmente sem água para as zonas mais altas".

ANO DE 1956 / CENTENÁRIO DA MATRIZ DA VILA DA POVOAÇÃO

Celebrando neste ano a Igreja Matriz da Vila da Povoação os seus cem anos de existência (nova matriz), à qual todas as igrejas do concelho pertenciam, foram feitos longos e monumentais preparativos para tão grande acontecimento, tanto mais que, também nessa altura, ia ser feita a transferência da vida religiosa da velha matriz do largo da Praça Velha, para esta renovada igreja, depois de ter a mesma passado por demoradas transformações.

Cabia então aos párocos de cada uma das freguesias do concelho, criar algo que viesse engrandecer este acontecimento centenário.

Esta foi, realmente, a primeira grande experiência porque passou o Padre Antero, porque lhe coube criar o contributo do povo da sua paróquia como padre e como filho.

De um trabalho histórico então publicado, lemos esta passagem muito elucidativa:


"O POVO INTEIRO VEM À PARIA DESPEDIR O SEU S. PAULO!"


"Ao largo, uma 'esquadra' lindamente engalanada e embadeirada composta de 27 barcos, aguarda o embarque do seu padroeiro".


Para depois, no seguimento do acontecimento narrado em livro publicado:


"Agora, os barcos, ancorados no porto, aguardam a saída de S. Paulo, que embarca com o seu pároco. Todo o povo da Ribeira Quente está na praia".


Embora este acontecimento acerca do povo da Ribeira Quente seja extenso no livro então publicado, só se descrevem sucintamente estas passagens por as mesmas serem imprescindíveis e este trabalho.

Numa outra passagem:


"Furiosas girândolas de foguetes estrugem nos ares, ao tocar em terra a quilha do barco que conduz o Apóstolo".


Depois, no descrever do acontecimento, mais esta passagem:


"Vem no seu andor, feliz concepção do seminarista João Vieira Jerónimo, um minúsculo barco a que não faltam todos os apetrechos da pesca".


Se nos debruçarmos sobre estes dados ligeiramente apanhados do livro "A IGREJA MATRIZ DA POVOAÇÃO E O SEU PRIMEIRO CENTENÁRIO", publicado no ano de 1956, facilmente notamos que o porto de pesca da Ribeira Quente (só calhau e areia), possuía o maior número de barcos de pesca de boca aberta nos Açores (isto por povoadao); por essa razão a freguesia da Ribeira Quente só era conheciada por terra de pescadores.

Povo diferente, muito religioso e sentimental, embora nesse ano ainda bastante inculto. Como freguesia possuía a maior densidade populacional dos Açores, por quilómetro quadrado, devido à sua muito limitada área administrativa de apenas 9.88 Km 2.

ANO DE 1955 / PADRE ANTERO JACINTO MELO

Depois de uma demorada mas benéfica permanência, e de um profícuo trabalho na defesa do povo da Ribeira Quente, paralelamente com a sua obrigação de pastor da Igreja de São Paulo, da Freguesia da Ribeira Quente, por obediência (as transferências não eram facultativas), ao então Chefe da Igreja nos Açores, D. Manuel Afonso de Carvalho, é colocado o Padre José Jacinto da Costa na freguesia das Feteiras do Sul desta ilha de São Miguel.
Este 36.º Bispo dos Açores, numa altura de transferências sacerdotais, colocou este grande servidor da sua diocese nesta paróquia quase com população idêntica à da Ribeira Quente. Foram 15 anos de insistentes canseiras em prol de um povo secularmente esquecido e abandonado.
Ficou o povo da freguesia a dever-lhe o ter passado o seu lugar a freguesia; a findar de uma injustiça que se estava a praticar contra os pescadores da Ribeira Quente (a do barracão); 3 novas salas de aulas; o posto de Registo Civil e um muito disciplinado arquivo paroquial.
O Padre "Minsinho" (na então linguagem do povo simples do lugar), não só era insistente quando procurava desfazer injustiças, mas também penetrante e oportuno de modo a desmantelar certas situações negativas.
Ele, Padre José, também sentia no seu coração o sentir profundo dos homens do mar.
Filho de um também José Jacinto da Costa que foi afoito armador de cabotagem em Vila Franca do Campo, proprietário do "São Pedro Gonçalves" mais conhecido por o "Barco do Mansinho", não desconhecia o pastor da Ribeira Quente, que aquele povo bom e simples precisava de permanente ajuda social-burocrática, porque a maioria das vezes não era acarinhado por quem dele tirava proveito sem se arriscar no mar.
Também devemos ser realistas e devemos reconhecer, se não tivesse existido o meticuloso Padre Mansinho, não teriam existido preciosos dados acerca do passado da Ribeira Quente, mormente a partir de 1900.
Por ordem desse sistema rotineiro de transferências de sacerdotes, deu-se pela primeira vez um acontecimento antes nunca ocorrido:
Para substituir o atrás mencionado padre, é colocado na paróquia de São Paulo da Ribeira Quente um sacerdote filho nativo desta localidade, o Padre Antero Jacinto de Melo (primeiro histórico).
O povo ressentiu-se com a transferência do seu amigo Padre Mansinho mas rejubilou de alegria quando soube que era o seu conterrâneo, o Padre Antero, quem dali avante passaria, dentro do espaço e do conhecimento zelar não só pelos seus interesses religiosos como sociais - porque foram sempre os sacerdotes colocados na Ribeira Quente, quem o representava em quase todas as circunstâncias delicadas.
Tendo tomado posse desta sua nova paróquia na sua velha terra, a 14 de Setembro deste ano de 1955, coube-lhe então, como homem da Igreja e filho da terra, ser o organizador dos festejos desse ano em honra do seu Senhor São Paulo.
Como se vai ver, não foi demorada a permanência do Padre Antero na sua terra natal.

ANO DE 1953

Porque a situação, após o sismo, se tornou muito grave em matéria de habitações, visto que algumas das casas demolidas não eram recuperáveis, não só pela sua péssima construção notoriamente improvisada, como também por as mesmas se situarem em estreitas veredas inclinadas, a Junta de Freguesia da Ribeira Quente insistiu com as autoridades para que fossem construídas algumas novas casas.
De um modo pouco urbano, foram projectadas vinte habitações para a zona nascente da foz da ribeira. Só seis foram erectas devido a uma comparticipação da Junta Central da Casa dos Pescadores.
Cada um dos moradores a quem foram atribuídas as casas, tiveram de entrar com uma parte do valor da obra, pagando quatro destes cinco mil escudos e, os outros dois, quatro mil escudos.
Por sua vez também a Câmara Municipal da Povoação mandou fazer mais dez casas mais a norte destas primeiras, mas na mesma margem da ribeira.
É o meticuloso Padre Mansinho que nos transmite esse acontecimento:
"Esta empreitada foi adjudicada aos Senhores José Duarte (José da Chica), Júlio Pacheco Simões e Ângelo Dâmaso Vasconcelos da Vila da Povoação no valor de cento e setenta e cimco mil escudos (175.000$00), sendo estas dez casas comparticipadas pelas seguintes repartições de Estado...?"
As retcências ou omissão, mostram-nos que este ilustre servidor da Igreja e do povo da Ribeira Quente, não completou aquilo que tinha para dizer, mas deixou-nos perceber que havia algo que não estava bem: a falta de conexão entre as entidades responsáveis.
Nenhum dos empreiteiros tinha qualquer conhecimento de construção ou urbanização e, só um destes possuía limitados recursos financeiros.
Eram assim, ao tempo, as adjudicações de empreitadas.
Já eram decorridos cerca de sete anos desde que o paredão de protecção da zona litoral entre o porto e o prédio das Vieiras, havia sido parcialmente demolido. É que, não só tinha sido duramente atingido no ano de 1946, mas, também: pela tempestade de 27 de Fevereiro de 1952.
Embora documentalmente se fale em reconstrução na verdade o que foi feito foi uma nova construção mais entrada no lado do mar, porque o primeiro levantado no ano de 1927, desde a zona do porto ao prédio das vieiras, era pobre e sem parapeito.
Esta obra foi feita pelo mesmo empreiteiro das Capelas que construiu o paredão da margem da ribeira depois de feitas as primeiras casas. A partir do porto para poente, a sua extensão ficou com 193 metros.
Continuando neste ano de 1953 a mesma monótona vida de labor em terra e no mar, o povo deste localidade quase não sentia alteração alguma no seu dia-a-dia de sempre. A abertura dos túneis não lhe trouxe as regalias sonhadas. Continuaram a não ter transportes públicos; não havia população flutuante. Apenas em alturas de melhor sorte, maior abundância de pescado (geralmente o sazão chicharro) dava origem a que houvesse um pouco de euforia por parte dos próprios pescadores e os vendilhões locais.
Os habitués vendilhões com seirão e burro, vindos da banda do norte da ilha, também ajudavam a quebrar a monotonia de sempre.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

ANO DE 1952

Atingida duramente neste ano, a sempre flagelada pelo mar freguesia da Ribeira Quente, passa novamente por horas de amargura e ansiedade.
A 26 de Junho deste ano de 1952, uma forte catástrofe sísmica atinge fortemente este povoado. As moradias que já eram insuficientes, quer pela sua fraca construção quer pelos materiais até então usados, não resistiram ao forte baloiçar do solo e caíram parcialmente.
Só cerca de dois meses depois, a 2 de Agosto desse ano de tragédia, veio à Ribeira Quente o então Ministro do Interior, Trigo de Negreiros, a fim de observar localmente os já trabalhos em curso. É o sempre atento e oportuno Padre José Mansinho quem, de um modo vago e superficial, faz referências e essa vinda ministerial, dizendo no Livro de Assentos:
"E, assim terminou esta visita ministerial no meio das aclamações deste povo rude e bom".

ANO DE 1950

Ao longo da sua história, só se notaram na Ribeira Quente duas vocações religiosas: uma foi a de João Vieira Jerónimo Junior que não chegou ao sacerdócio, e outra, a de Antero Jacinto de Melo, feito sacerdote neste ano de 1950 - no percurso do tempo, e já no findar do século passado, também se manifestaram outras vocações como a de Luis Manuel do Rego Miúdo, que chegou à Filosofia; Luis Miguel Lima, que atingiu o 5.º ano; João Linhares Costa, que atingiu só o segundo ano e Márcio Paulo Pimentel Peixoto que frequentou a Escola Apostolica Dominicana da Ordem dos Pregadores, concluindo o Secundário.
O Padre Antero foi então, depois da sua Missa Nova celebrada na sua Igreja de São Paulo, colocado no lugar da Covoada.
Depois de um longo interregno de 50 anos, neste ano de 1950 a Ribeira Quente volta a figurar nos Serviços Nacionais de Estatística, como povoado. A primeira vez ocorreu no ano de 1864, 1878, 1890, mas depois da estatística de 1900 desapareceu totalmente e só meio século depois voltou.
A 20 de Junho deste ano de 1950, desta vez como Ministro das Obras Públicas, o engenheiro José Frederico do Casal Ribeiro Ulrich, que sucedeu a Duarte Pacheco no cargo de ministro, visita a Ribeira Quente pela segunda vez. Tinha então esta freguesia 2.126 habitantes.
É o Pdre Mansinho quem descreve este acontecimento:
"Em 20 de Junho, visitou esta freguesia Sua Excelência o Ministro das Obras Públicas, Eng. José Frederico do Casal Ribeiro Ulrich, pelas dezassete horas, acompanhado de uma numerosa comitiva, por alguns engenheiros do seu ministério, tendo estudado demoradamente, "in loc", todas as necessidades desta terra: porto, bairro piscatório, muralha da ribeira do porto dos barcos e ainda a nova estrada para a praia de banhos do Fogo, certificando-se e atendendo com a melhor das atenções ao péssimo estado desta freguesia".
Esta linguagem, embora hoje nos pareça bajulatória, não o era, porque era uma linguagem quase convencional, cujo fecho redundava sempre em novas promessas por parte do lisonjeado, que raramente eram cumpridas.
Embora a necessidade de novas habitações fosse premente, nada resultou desta visita ministerial, isto é:
Não foi feito fosse o fosse no porto da Ribeira Quente; não foi feita nenhuma estrada nova entre a Ribeira e o Fogo, por isso o mar continuou a comer a terra neste percurso do litoral; não foi feito nenhum bairro piscatório nem nenhum paredão de protecção às águas da Ribeira. Por isso, foram as entidades locais, concelhias e de ilha, que deram seguros passos para que algo fosse feito em prol do povo da Ribeira Quente, porque já era grave a situação social em matéria de agregados famíliares, visto que muitos dos velhos e novos casais viviam aboletados em velhos casebres de uma só divisão.
Com dinheiros pedidos ao Fundo de Assistência, do Governo Civil, Junta Geral e Câmara Municipal da Povoação, foram contruídas oito modestas casas cuja empreitada foi adjudicada a um filho deste lugar da Ribeira Quente, ao carpinteiro Diniz de Melo Cidade.
Pouco experiente na matéria de avaliação, a sua proposta de 59.750$00 foi a mais baixa, por isso a empreitada lhe foi concedida.
Obrigado a cumprir com aquilo que estava preceituado no contrato, o mesmo teve de recorrer a um empréstimo de vinte e quatro mil escudos para poder concluir o trabalho, mas teve de emigrar para a Venezuela - ao tempo refúgio de quem ambicionava viver e sonhar - para poder satisfazer o seu grave compromisso.
Porque também o paredão da ribeira era impreterivelmente necessário, foi feito, o mesmo, neste mesmo ano. Embora rudimentar, porque a matéria ciclópica foi assenta sobre velhos alicerses de pedra e barro com mais de 50 anos de existência, este então monumental empreendimento foi adjudicado pela importância de trazentos e sessenta e oito contos (368.000$00), a um eventual empreiteiro das Capelas.

ANO DE 1947

Devido à perda da "Escola do Saraiva", o Padre José Mansinho havia solicitado aos governantes não só uma outra escola, mas também, o aumento de mais uma sala de aulas para o sexo feminino. Esta necessidade foi atendida e a mesma começou a funcionar em Abril deste ano. É que, segundo dados estatísticos feitos por este laborioso sacerdote, desde o ano transacto até ao fecho estatístico anual, a população havia aumentado 49 pessoas, mas das casas, sempre pobres, apenas foram feitas seis unidades!
Continuando a depender apenas do seu inseguro rendimento, sempre bastante pobre, era a Junta de Freguesia que ia, de uma forma bastante periclitante, tentando fazer alguma coisa que demonstrasse que, na realidade, algo se tentava fazer.
Foi por esta construído um lavadouro público na zona do Fogo - embora ainda não existisse água canalizada mas foi aproveitado um pequeno caudal de água insalubre - que o povo bastante louvou, porque realmente era um melhoramento.
Neste ano, a Câmara Municipal da Povoação, por razões óbvias, mandou abrir o ainda hoje actual caminho que liga as traseiras da igreja à praia do Fogo.
Com os túneis a funcionar e a experiência de alguns pescadores desta localidade na pesca industrial, nem por isso houveram notórias transformações nos rendimentos das famílias dos mesmos, porque a pesca então não criava qualquer riqueza, nem mesmo para os industriais.
Quer por efeitos traumáticos - o povo da Ribeira Quente sempre foi muito sensível aos graves acontecimentos - quer pelo não aparecimento nos mares dos Açores por um período de quase sete anos, do atum, o que deu origem a um descontentamento entre pescadores e industriais - a Corretora já possuía em 1947, sete lanchas, a Clara, a Columba, a Santo Cristo, a Santa Rita, a Bárbara Assunção, a Valentina e a Luís Costa, onde alguns pescadores da Ribeira Quente trabalhavam - logicamente sumiram-se neste período, muitos irrealizados sonhos.
Melhor estruturada, a Sociedade Corretora, que já vinha lançada desde 1940/41 em outras experiências sem ser as do mar, ao adquirir em 1944 a fábrica Dias & Dias de Vila Franca, a Salga e Salmoura, a Laurénio Tavares, quando se lançou, em 1944 à construção da fabrica de Rosto do Cão (S. Roque), fê-lo na esperança de ver crescer aquilo que já era promissor, mas que, na realidade, não foi.
Ainda assim foi a única empresa que se pôde equilibrar porque veio mais tarde a alargar a sua frota, desde 1953 até 1965, tendo comprado em 1963 a fábrica da firma Lopes, as fábricas Calheta e Santa Maria. Isto não assegurava o futuro dos pescadores da Ribeira Quente, mas deu origem a que alguns destes tivessem alternativas.
De 1947 a 1950 houve como que um interregno de não iniciativas.

ANO DE 1946 - PESCA DO ALTO MAR E TRAGÉDIA




Incentivados pelas boas perspectivas lançadas ao tempo pelo industrial Lori, e aproveitando não só a experiência alcançada por alguns velhos sábios pescadores do porto da Ribeira Quente, que estiveram ou estavam ao serviço de algumas embarcações de pesca do bonito e atum, do referido industrial dos lados de Santa Clara ou Nordela, mas também a certeza de que arranjariam facilmente tripulações na Ribeira Quente, dois comerciantes desta localidade investiram nesse tipo de embarcações motorizadas, porque o futuro parecia ser promissor.


António Inácio Flor de Lima, homem empreendedor, juntamdo-se a Manuel Pacheco de Medeiros Júnior, da Vila da Povoação, mandou fazer uma embarcação idêntica às do Lori, mesmo na Ribeira Quente, visto que já ali existiam dois valiosos carpinteiros-calafates, o Sousa e o Horácio, ambos com vastos conhecimentos de construcção de barcos de pesca artesanal.


O outro comerciante foi Luiz Linhares de Deus. Este, de parceria com o muito experiente lobo do mar da localidade, José Narciso, também se lançaram na mesma senda.


Este tipo de embarcações veio, de certo modo, revolucionar os velhos costumes dos pescadores da Ribeira Quente, porque lhes abria a porta para a pesca em mar largo.




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No ano de 1946, depois de já há muito exercerem este tipo de pesca industrial, mais chamada de pesca de alto mar, estando estas duas embarcações nas imediações da Ilha de Santa Maria, foram as mesmas apanhadas por uma tremenda tempestade - não existiam meios de comunicação a bordo porque a navegação ainda dependia mais do conhecimento dos mestres das embarcações do que da informação - que começou na noite de 4 para 5 de Outubro deste acima referido ano.


A "Lancha do Narciso" (sempre assim denominada), com este velho timoneiro ao leme, tentou fazer-se ao largo, mas foi impedida pela força do vento e vagas. Tendo sido arrastada na direcção do litoral, veio a despedaçar-se perto do "Calhau da Roupa", situado entre a Ponta do Marvão e o porto daquela ilha.


Por volta das dez horas da manhã do dia 5, a outra embarcação, depois de uma noite de odisseia, entrou espectacularmente na doca de Ponta Delgada.


Morreram dezassete pescadores no porto de Vila do Porto, entre os quais Júlio Bento do Couto, de 44 anos de idade, casado na Ribeira Quente.


No porto de Ponta Delgada, devido a esta tempestade, morreu esmagado entre a muralha e o barco do Anhanha, outro filho da Ribeira Quente, João Rita.


Também nessa noite de tempestade a escola mista conhecida como "Escola do Saraiva" foi levada pelo mar, assim como quase toda a muralha de protecção à mesma, que também protegia o acesso à Ponta do Garajau e dali avante.


A zona estre a Ribeira e o Fogo ficou profundamente cavada e a praia desapareceu porque o mar continuou a buscar o espaço que era seu.


Tinha então a Ribeira Quente uma população de 2070 almas distribuídas por 460 fogos que eram insuficientes, porque alguns dos edifícios não eram habitáveis.


Da visita feita no ano anterior pelo sub-secretário das Obras Públicas nada transpareceu além das tradicionais promessas. Porém, em Fevereiro desse ano trágico, o povo desta localidade recebeu a visita de uma viatura que andava pelos povoados dos Açores, a mostrar, através de uma câmara cinematográfica, a "Viagem Presidencial de Carmona aos Açores em 1941" e, simultaneamente, o filme trágico dos pescadores de Varzim, o "Ala-Arriba" de forte comoção!


E assim se respondia a prementes necessidades deste povo sempre a sofrer um rigoroso destino.


Foi do Livro de Assentos da paróquia que foi tirado este extracto:


"O pároco dirigiu a palavra ao povo pelo microfone, agradecendo ao Governo da Nação a sua amabilidade para tantos que só agora pela primeira vez viam cinema".


E era assim este modesto povo da Ribeira Quente, que nada recebia mas logo agradecia algo que não alterava a sua situação de miséria. Mas a linguagem do seu pároco não podia ser outra porque era assim a tradição...

ANO DE 1943 - AQUISIÇÃO DO PASSAL

Desde há muito que era uma ambição dos servidores da Igreja de São Paulo da Ribeira Quente, terem os párocos casa própria para seu alojamento a fim de não terem de recorrer a particulares, como sempre o fizeram desde que esta localidade passou a ter padre.
Já antes o Padre José Luiz Borges Vieira havia tentando erguer um passal; no entanto não foi possível, por razões óbvias.
Porque o Padre Mansinho, quando se propunha fazer algo de necessidade não se detinha; porque era insistente, embora não possuísse fundos necessários para tal empreendimento; porque a Igreja só havia atingido a importância de 6.923$43 da qual foram subtraídas as percentagens de 769$67 para o fundo diocesano e 360$50 para os indultos Pios, restou apenas para seu fundo de maneio o total de 5.793$67 que não podiam ser tocados, o Padre Mansinho deu a conhecimento ao povo da sua intenção, tendo este resolvido contribuir além dos 3% do valor do pescado que já entregava à Igreja, que era uma importância de manutenção, contribuir com os seus braços para a consecução desse empreendimento.
É do Livro de Assentos da paróquia que foi tirada esta rica passagem:
"Em 10 de Janeiro começou a desterrar-se o lugar do Passal, apareceram 150 mulheres, muitos rapazes, o que tem continuado em vários domingos".
Esta muito evidente nota de amor do povo da Ribeira Quente mostra que a par da pobreza, existia também no mesmo uma profunda riqueza na alma.
A madeira para o Passal, por rogo desse incansável sacerdote, foi oferecida pelos latifundiários das grandes propriedades que cercavam a parte montanhosa do povoado, onde abundavam a acácia, o pinho, o carvalho e o castanho. A criptoméria vinha das matas da zona da "Seladinha".
Depois de ser serrada, toda a madeira foi transportada às costas e à cabeça dos homens, crianças e mulheres da Ribeira Quente, mas tudo isto feito aos domingos.
Mas esta obra não chegou a ser levada a cabo visto que, embora o pároco já tivesse angariado dez mil escudos para a mão-de-obra necessária, o projecto gratuito e os materiais, apareceu a oportuna venda da casa do Dr. João Correia da Silva, que era de veraneio, mas muito apropriada para Passal. Por essa razão esta casa foi adquirida pela Igreja e povo, pela importância de 25.000$00.
Por consentimento diocesano foi autorizada a venda da madeira já adquirida ao então Director Escolar do distrito, professor Moniz Morgado.
Com os dinheiros excedentários foram feitas alterações neste edifício, de modo a este poder servir futuramente como passal.

PADRE JOSÉ JACINTO DA COSTA

No ano de 1940 deu entrada na Paróquia de São Paulo desta localidade o mais eficiente pároco até então ali entrado em matéria de auxílio social-burocrático, isto a 1 de Dezembro. O Rev. Padre José Jacinto da Costa, tinha sido nos últimos três anos Vigário Cooperador do Padre Ernesto Jacinto Raposo, pároco da Igreja Matriz de Nossa Senhora Mãe de Deus da Vila da Povoação e Ouvidor Eclesiástico do Concelho.

Como tem sido dito ao longo deste trabalho histórico, o povo da Ribeira Quente sempre esteve sociologicamente dependente dos seus párocos a fim de resolver certas situações burocráticas, não só pela razão do seu isolamento mas também. por outras razões óbvias. Por essa razão, os padres nomeados para esta paróquia, autónoma ou não, geralmente vinham da Povoação.

Metódico e grande observador, este sacerdote não só se dedicou aos trabalhos das suas obrigações espirituais, mas sim, também e, de uma maneira muito acentuada, à imperiosa missão de ajudar o povo da Ribeira Quente a safar-se da sua maneira de ser profundamente subserviente e conformado.

Pelo modo do seu comportamento, pela maneira como o povo aceitava a sua acção de solidariedade, este sacerdote logo passou a ser estimado pelo povo.

Embora não há muito colocado nesta localidade, o Padre José Jacinto da Costa que o povo da mesma chamava de O SENHOR PADRE "MINSINHO" (Mansinho dos Mansinhos de Vila Franca), logo reparou que estava perante um povo pobre, modesto, mas de forte sentimento religioso-humano que necessitava ser esclarecido acerca não só das suas obrigações sociais mas também dos seus direitos sociais-humanos. Por essa razão, ao tomar conhecimento de uma arbitrariedade imposta pelo município da Povoação, o de pagar 7% sobre todo o peixe apanhado, com a taxa de ocupação do barracão da discórdia, já antes mencionado, mas que nunca havia sido usado pelos pescadores desde o ano de 1936 porque o seu sistema tradicional de venda continuava a ser, como sempre o foi historicamente, feito à beira dos barcos, o Padre Mansinho deslocou-se propositadamente a Ponta Delgada, onde contactou no Governo Civil o seu então Secretário, Dr. José Bruno Carreiro, o qual pôs a par de férulo imposto que desde a data atrás mencionada agravava muito substancialmente a vida dos pescadores, que já arcavam com o tradicional dizimo estatal de 10%.

Posto pelo Dr. Bruno o assunto ao então Governador Civil do Distrito, o Capitão Rafael Sérgio Vieira, este achou que o mesmo assunto devia ser oficialmente feito pelos pescadores ao Ministério da Administração Interna.

Em nome dos lesados, foi o Padre Mansinho quem fez a exposição que seguiu para Lisboa, a qual era encabeçada com a assinatura de António Inácio Flor de Lima, um dos homens conceituados da Ribeira Quente.

Depois do andamento do processo o Dr. Bruno para confirmar a recepção, escreve:

"Janeiro de 1941. - Exm.º Snr. Acusando a recepção da carta de V. Ex.ª de 24 do corrente, venho comunicar-lhe o caso da exigência de taxa aos pescadores pelas áreas ocupadas pelo peixe que são obrigados a levar aos Mercados Municipais foi submetida à apreciação do Ministro do Interior. Logo que seja recebida informação, comunicá-la-ei ao senhor Padre José da Costa, que veio a este Governo Civil tratar este assunto. Julgo por isso desnecessário apresentar neste momento reclamações às Câmaras".

Visto tratar-se de um rendimento que os municípios bem necessitavam, fossem estes de carácter férulo ou não, o município ressentiu-se, mas os pescadores deixaram de pagar o imposto, não só porque não necessitavam do referido barracão, mas porque, por ironia, desde há muito este estava a servir de caserna aos militares ali aquartelados (estávamos no período da II Guerra Mundial).

Nesse mesmo ano de 1941, porque o povo da Ribeira Quente continuava a fazer parte da Freguesia de Nossa Senhora Mãe de Deus da Vila da Povoação, os eleitores deste povoado tiveram de ir cumprir a sua obrigação de votantes políticos àquela sede de concelho. Porque não haviam transportes nem públicos nem particulares na localidade e o mar não estava de feição, foi o Padre Mansinho quem resolveu a situação recorrendo ao já citado Governador Civil, o Capitão Sérgio Vieira, o qual conseguiu que uma camioneta militar ali fosse buscar, em desdobramento, os 250 eleitores da Ribeira Quente e, de volta trazê-los, depois de cumprido o dever de votantes.

Por sua vez, como sempre, a mulher da mala do correio, a já cansada Maria Arraia do "Caminho do Redondo" e, depois de entregue o saco da correspondência na camioneta dos transportes públicos que passava lá na apertada curva, descia o mesmo caminho, sempre de pé nu.

Inconformado com esta e outras situações, o metódico e activo Padre Mansinho pensou em dar uma volta a toda esta inaceitável situação de falta de humanismo e civismo como era tratado o povo da Ribeira Quente, não só pelos governantes da nação como pelos governantes de ilha e do seu próprio concelho.

Pondo-se em contacto com o Rverendo Dr. Caetano José Travassos de Lima, que então era o Conservador da Conservatória do Registo Predial da Povoação - o qual tinha muita simpatia pelo povo da Ribeira Quente devido à sua religiosidade e simplicidade - estes dois sacerdotes deram essa grande volta na mediocridade governativa.

Como homem das leis, o Padre Dr. Travassos, depois de adquiridos todos os dados indispensáveis, redigiu o requerimento necessário para ser enviado ao Ministério do Interior feito em nome do povo da Ribeira Quente, o qual pedia que este povoado já com 396 fogos e uma população de cerca de 1800 habitantes, fosse feito ferguesia por justa posição e rendimento.

O Padre Mansinho encarregou-se das necessárias assinaturas e da concordância da Junta Geral do Distrito que achou justo o requerimento, o qual foi enviado ao já referido ministério a 18 de Junho desse ano de transformações, 1941.


Anos 60 - Na foto o Padre José Jacinto da Costa (Padre José Mansinho) encontra-se a segurar o Báculo (bordão de pastor) do Bispo D. Manuel.

INAUGURAÇÃO DOS TÚNEIS - 1940




Embora já a 22 de Junho de 1939 se tivesse inaugurado com pompa e circunstância a galeria de avanço do segundo túnel de acesso à Ribeira Quente, onde não faltou o BEM VINDO para os que desciam do lado norte e o VIVA SALAZAR, do lado oposto onde estava concentrada uma massa humana do povo desta localidade que, na realidade, era quem sentia a verdadeira alegria de ver serem demolidos os últimos centmetros de terras verticais que a separava do livre acesso à mesma galeria, a verdadeira inauguração de todo o ramal, que partia da bifurcação formada por este mesmo e a estrada Furnas-Povoação, só foi feita dez meses depois, a 11 de Agosto de 1940.


E assim se pôs termo a um doloroso isolamento a que o povo da localidade da Ribeira Quente estava sujeito há cerca de 260 anos!


AS LANCHAS


Tendo adquirido umas pequenas instalações na zona do fim da freguesia de Santa Clara, isto na década de trinta do século passado, o industrial continental Virgílio Lori, depois de as ampliar e modernizar adequadamente, veio dar um grande impulso à vida de muitos pescadores em São Miguel, não só por lhes abrir o caminho para outro tipo de embarcações, como para outro tipo de pesca, a do alto mar.

Criando um tipo de embarcações até então nunca usadas em São Miguel na faina da pesca, barcos motorizados com um raio de acção que permitia a penetração no alto mar - embora ainda bastante aventureira devido à falta de recursos de orientação e comunicação - aos quais o povo se habituou a chamar de LANCHAS. Conseguiu o mesmo não só implementar um novo tipo de pesca como também, pela primeira vez, uma indústria conserveira que usava óleos ou azeites nas suas confecções.

Alguns pescadores da Ribeira Quente foram incluídos nas tripulações dessas embarcações conhecidas por as Lanchas do LORI que pescavam bonito e atum para a "Fabrica do Lori de Santa Clara", que foi muito positiva porque não só proporcionava outras alternativas a pescadores artesanais de tradição, mas também porque mantinha um relativo número de postos de trabalho a domésticas que nunca haviam sido fabris.

Há que notar que embora a Sociedade Corretora já existisse antes do Lori, esta sociedade nascida por força do ananás, ainda não existia como indústria de pesca transformadora, visto que durante os anos de 1940/41, se mantinha a fabricar rodelas de ananás e sumos nas suas instalações da Rua do Conde, em Ponta Delgada e, depois, entre 1942/43, fabricava doce de batata doce para a Cruz Vermelha Internacional, nestas mesmas instalações.

Só no ano de 1944 a Sociedade Corretora adquiriu à Dias & Dias as suas instalações em Vila Franca do Campo, a fim de incrementar a indústria de pesca em maior dimensão, alterando-a e dando-lhe a modernidade que não tinha.

Adquirindo em 1946 a fabriqueta de peixe de sal moura a Laurénio Tavares, da Rua da Vila Nova, com este alvará a Corretora construiu em 1946 a sua melhor unidade industrial de conservas de peixe em Rosto de Cão (São Roque) e, mais tarde, em 1963, adquiriu ao industrial desse ramo, de nome Lopes, a fábrica de conservas da Calheta e a de Santa Maria.

O BARRACÃO E A ELECTRIFICAÇÃO DA IGREJA

No ano de 1936, sem razão aparente que o justificasse, a Câmara Municipal da Povoação mandou construir na zona sul do "Espraiado", quase a tocar no porto natural da Ribeira Quente, um mercado de peixe que ficou conhecido por o BARRACÃO.
O edifício, que embora não fosse uma obra de grande vulto ainda assim se destacava com sobranceria dos casebres dos moradores que lhe ficavam nas redondezas e ao lado - todos de pescadores - foi uma obra realmente desnecessária.
Perfeitamente desnecessária aceitando a lógica de que na Ribeira Quente o peixe era quase um bem comum que todos usufriam, não só os que o apanhavam, como os que, como consumidores e não pescadores, o tinham facilmente à sua volta. Os vendilhões (alguns pescadores), só o adquiriam à beira dos barcos. Por essa razão a construção deste mercado não foi aceite como melhoramento mas como agravamento das dificuldades de sobrevivência desta gente, visto que o município lhes impôs um imposto de 7% sobre o pescado que já sofria do tradicional dízimo (imposto) de 10% que o governo nacional arrecadava de cada barco, através do seu fiscal directo, o histórico guarda fiscal.
Esta situação ficou por algum tempo, até que, por força de uma obrigação de colaboração, um servidor do povo no espiritual e no material, o fez desaparecer.
No ano seguinte a este acontecimento, o então pároco da Igreja de São Paulo, o Padre João de Medeiros a quem o povo chamava de "O PADRE JOÃO COUCÃO", partia em Dezembro desse ano de 1937 para os Estados Unidos.
O Vale da Povoação não só era criador de trabalhadores para exportação, como também de ministros da Igreja.
Para o substituir, veio logo depois, mas já no começo de 1938, o Padre Cristóvão de Melo Garcia, natural da então Vila da Ribeira Grande, que durante os últimos três anos havia sido Vigário Cooperador do Ouvidor Eclesiástico do Concelho, o Padre Ernesto Jacinto Raposo.
É no período de permanência do Padre Cristóvão que a Igreja de São Paulo é electrificada, porque até então, desde a sua erecção, os serviços religiosos nocturnos eram feitos à luz de lanternas a petróleo, que foram depois a acetilene, até àquele trabalho de electrificação. O custo deste empreendimento atingiu o montante de três mil setenta e um escudos e cinquenta centavos. Foi mais um sacrifício imposto ao povo da Ribeira Quente, que o recebeu com gosto, visto que desta forma enriquecia o seu templo.
Continuava a crescer proporcionalmente o número de habitantes neste povoado, por isso também a imperiosa necessidade de serem feitas mais habitações mesmo que fossem rudimentares, para fugir à miscível caldeação e acumulação de mais de um casal a viver no mesmo quarto, situação esta sempre susceptível de acontecer em povoados bastante pobres. Também a necessidade de mais embarcações era premente.
Por ironia, se era o mar que mais facultava os meios de sobrevivência desta população, também era este quem ia aos poucos roubando a terra, o espaço vital para as suas necessidades sociais de expansão!
No ano de 1939, num dia de grande tempestade que fez crescer descomunais vagas, estas vieram atingir as terras que ainda restavam desde o começo da sua absorção pelo mar e, de tal modo que pouco ficaram destas na zona compreendida entre a chamada "Zona das Vieiras" e o começo da Ponta da Albufeira ou Fogo, porque esta parte litoral continuava desportogida e sem qualquer quebra-mar.
Nesta altura, foi a família de João Vieira Jerónimo a mais atingida por ter perdido a quase totalidade do seu terreno, incluindo a sua casa de moradia que serviu parcialmente de igreja provisória cerca de dezasseis anos, após a derrocada do segundo templo de São Paulo no ano de 1900.
Nunca existiu, relativamente aos primitivos tempos da criação de um povoado piscatório na Ribeira Quente, algo que nos elucidasse acerca do tipo de embarcações então usadas. Porém, tudo nos leva a crer que fossem muito rudimentares e ali mesmo improvisadas visto que todo o espaço montanhoso desta localidade sempre foi abundante de vegetação espontânea apropriada para a construção de pequenas embarcações. Ainda na primeira metade do século XX não só a bacia ou vale da Povoação Velha possuia madeiras de cavername, como o cedro do mato, a urze e o sanguinho (planta ramnácea), como também quase toda a área do seu concelho, incluindo a Ribeira Quente. No século XIX estas embarcações eram simples e idênticas a todas as embarcações da costa sul, mas já no começo do século XX as mesmas eram de tamanho superior às embarcações de pesca da Vila da Povoação e Faial da Terra e em maior quantidade.
Foram filhos da Ribeira Quente os primeiros a possuir e a usar redes-de-arrasto para caçar cardumes de sardinha que eram muito abundantes (na altura própria), no espaço de mar entre a Ponta da Lobeira e a da Pedreira do Nordeste, mais propriamente dito no mar da Fajã do Calhau. Por vezes, devido à grande distância entre a Ribeira Quente e esta referida fajã, os pescadores e barcos pernoitavam neste lugar de então praia permanente.
Três dos proprietários deste tipo de redes (foram 5 os proprietários) foram-se fizar, dois na Vila da Povoação, e um no Faial da Terra.
O primeiro, João Peixoto, foi mais tarde fixar-se com sete filhos no lugar do Morro da Vila da Povoação, de onde deu origem a uma familia grande e prolífera que se ramificou não só nesta vila como nas suas Lombas, Faial da Terra e América do Norte.
O segundo, João Inácio, permaneceu no seu povoado de origem, onde singrou relativamente, quer social quer economicamente.
Mas o diversificado tipo de pesca então praticado, mais acentuadamente a pesca do chicharro, sardinha, cavala ou outra, mesmo quando era abundante, não alterava substancialmente o curso de vida das famílias da Ribeira Quente ligadas ao mar, porque o produto do seu trabalho só tinha uma única saída, a do tradicional sistema de venda intermediária aos vendilhões locais ou os de fora que, por sua vez iam vender o peixe fora da localidade.
Este sistema rotineiro era inalterável porque quase não havia pesca industrial. Só em Vila Franca do campo existia uma pequena fábrica conserveira da Sociedade Dias & Dias que pouco pescado absorvia e, quando absorvia, fazia-o a preços por si estipulados.
Na Vila da Povoação existiam duas firmas com tamques de salgação só para recursos de inverno, enquanto em Ponta Delgada, na Rua da Vila Nova, existia uma pequena unidade pertencente à Firma de Laurénio Tavares & Filho que praticava a salgação em salmoura, peixe que depois exportava para o chamado mercado da saudade (América do Norte), em pequenas quantidades.
Na Rua do Calhau havia uma outra pequena fabriqueta que procedia da mesma forma. Por essa razão, e porque Ponta Delgada lhes ficava distante, colocados nesta situação, os bravos homens de mar da Ribeira Quente continuavam a sobreviver com muita dificuldade, como sempre, por não terem outra alternativa.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

OS TÚNEIS


O tão almejado acesso ou ramal para o lugar da Ribeira Quente, simbolicamente começado, como já foi dito, aquando da passagem do Rei D. carlos pelo lugar dos Tambores, isto em 1901, só veio a ser aprovado a 23 de Maio de 1902 e começado em Novembro de 1903, porque, ironicamente, só começou a ser notado 34 anos depois, quando em fins do mês de Outubro de 1935 foi dado início à perfuração da primeira barreira sob a qual foi plantado o primeiro troço do túnel fraccionado que ligou o velho povoado ao resto do mundo que lhe era desconhecido, devido à falta de humanismo por parte de quem não sentia que ali havia um povo. Esta primeira fracção do túnel quando completa, ficou ao atingir a ponte de ligação sobre a "Grota Suja", com o comprimento de 84 metros.

Obra então empolgante para seu tempo - hoje bastante desnecessária porque a perfuração foi feita em duas barreiras já quase no fim do seu percurso descendente nas proximidades da ribeira - começou numa altura em que o meio rural do Concelho da Povoação atravessava uma das maiores crises de falta de trabalho de sempre, porque os seus artífices e auxiliares sempre estiveram parcialmente dependentes das economias que os nossos emigrantes iam amealhar fora da ilha. Por essa razão, estando a América do Norte ainda sob os efeitos da sua maior depressão histórica, a de 1929, os seus reflexos colidiram com uma já grave situação que mais a agravou. Por isso, é lógico que se diga que a abertura dos túneis da estrada de acesso ao povoado da Ribeira Quente, veio propositadamente numa altura oportuna, mas não deixou de ser uma obra de exploração humana.

Continuando a sua faina no mar, sempre que este lhes permitia, os pescadores viam na abertura do t'unel o sonho que os seus antepassados sempre acalentaram, o de usufruir uma mais valia par o fruto do seu trabalho sempre condicionado à velha tradição do vendilhão de cestos e palanca, o qual, por não ter caminhos de saída, só lhe era permitido usar o velho caminho de acesso ao "Redondo", de onde derivava para o vale da Povoação.

Poucos filhos de pescadores iam à escola improvisada na propriedade do Saraiva, porque as necessidades dos meios de sobrevivência estavam acima das de uma educação fechada e limitada. Por essa razão o túnel foi a escola das infelizes crianças que ali sol-a-sol, iam acarretando, em cestos de dois alqueires, as terras que lhes iam pondo no dorso, as quais, durante a perfuração do primeiro túnel, iam descarregar nas margens da ribeira, e depois, as trazidas do segundo túnel, depositavam-nas por cima do parapeito da ponte de ligação dos mesmos para o fundo da "Grota Suja".

Mas a missão das crianças não se circunscrevia apenas à obrigação de acarretar em cestos ou simples carriolas, inventadas pelas mesmas para aliviar o dorso já cansado, as terras que iam sendo removidas do furo e do alargamento a abobadar. Também tinham por missão serem serventes de argamassas, de irem buscar às grotas água potável para dar de beber a todo o pessoal, da recolha das ferramentas usadas pelos pedreiros, isto muitas vezes feito sob a ameaça de um improvisado chicote!

Ainda hoje existem, tanto na Ribeira como no Fogo, na mente de velhos cansados, reminiscências desse desumano passado de abiofilia.

Não só as crianças mas sim todos os trabalhadores não contratados (a esmagadora maioria), não usufruiam de quaisquer direitos de seguro das suas vidas.

Foi sob a orientação de um pedreiro das Furnas que a pedra lavrada pelos canteiros ia sendo assenta sobre os cimbres de madeira para fechamento da abóbada dos túneis, feitos pelo valioso carpinteiro também das Furnas, o Mestre Manuel Vieira Galante - depois da perfuração este trabalho de carpintaria era o mais importante.

O livro "TÚNEIS DA LIBERDADE", da autoria de Maria de Deus Raposo Medeiros Costa, publicado em 1996, baseado em imformações colhidas de alguns idosos que nesta obra trabalharam quando crianças, retrata substancialmente alguns factos verdadeiros.

É deste livro esta elucidante passagem:

"Toda esta perseverança dos homens e da ajuda prestimosa das crianças na obra, revelam uma necessidade desmedida de trabalhar para o sustento da casa".

E depois:

"Um dos apontadores da obra dos t'uneis foi..., caracterizado como sendo um empregado zeloso, activo e competente, que cumpria as ordens recebidas e as fazia cumprir rigorosamente".

Isto, segundo o critério de uma notícia veiculada por um jornal de Ponta Delgada de 19 de Agosto de 1940, só manifestava o retumbante trabalho de quem pouco trabalhava, porque só mandava quem trabalhava!

O rigorosomente expresso caracteriza perfeitamente a acção e personaliade de quem, talvez assente numa possível confortável cadeira, mandava escravizar crianças!

Como espelho desse relevante trabalho, ainda se lê nesse livro:

"Do relato dos trabalhadores, bastantes vezes as crianças foram mandadas trabalhar ao ritmo do 'vime' para apressar o serviço. Unânime é também a opinião de que este trabalho fora um trabalho de escravidão".

esta radiografia superficial de uma obra que teve raízes no ano de 1901, como já foi dito, no longo percurso de 34 anos não só causou ansiedade a quem sofria e se queria libertar, como depois de feita, se tornou pobre e insuficiente porque, se os túneis ficaram como algo de positivo, todo o traçado fora destes nunca passou de um ziguezagueante atalho por vezes colocado sob perigosas barreiras que deram forma ao curso da ribeira que por si alinhou a estrada!

Desde sempre insuficiente e incapaz, por isso desde há muito a necessitar de correcções, só no começo da década de setenta, a Junta Geral adjudicou uma empreitada de correcção desse ramal a uma firma que não correspondeu ao determinado porque faliu. Por isso, foi esta Junta que, em molde de trabalho apressado, o completou e continuou a chamar-lhe de Ramal da Estrada Nacional N.º 11 que, depois de regionalizado, se chama de Estrada Regional 2-2.

No extenso período de governação do primeiro Governo Regional dos Açores, embora o trânsito para a Praia do Fogo da Ribeira Quente aumentasse visivelmente, nada de substancial foi feito para o facilitar nem diminuir o perigo que esta estrada sempre representou.

Retomando o curso cronológico da história como vinha sendo feita, pouco se alterou no comportamento do povo da Ribeira Quente ao saber do começo da abertura do primeiro túnel, mais acima do povoado, a não ser a sensação de que havia uma obra em curso para a abertura dos túneis de acesso a este, e que gente sua estava a trabalhar na mesma. Mas é lógico que a expectativa era permanente, visto que se tratava de um empreendimento desde há muito desejado porque ia, quando concluído, por fim a um martírio secular.

No entanto, como sempre, o mar ia comendo a terra em dias de vendaval, solo postiço que a Mãe Natureza havia colocado sobre os fundos que lhe pertenciam. Por isso a orla marítima, entre a Ribeira e a Ponta da Golfeira ia aumentando ano a ano, dando lugar a uma pequena baía que se ia criando à custa do desaparecimento daquilo que ainda restava do primitivo povoadao ou lugar de veraneio.

A "Escola do Saraiva", assim denominada porque era uma escola improvisada numa casa de um natural local, estava situada no extremo da sua propriedade junto à praia da foz da ribeira, onde se esperava que o mar um dia chegasse, por isso houve que alertar o município da Povoação para esta realidade.

Presidindo, ao tempo, aos destinos daquele município o Dr. António do Espírito Santo Lopes - que foi um dos presidentes com mais iniciativa que este conheceu no tempo em que o mesmo vivia em permanente penúria - para protecção da escola e caminho de acesso, foi feito um paredão no lado nascente da boca da ribeira, que partia da velha ponte de madeira até ao começo do atalho para a banda da "Ponta do Garajau".

Porque se tratou de uma obra relativamente modesta, embora bem feita mas não muito consistente porque os materiais usados foram os tradicionais barro, cal e água, logicamente, um dia viria a desaparecer, mas ficou a contar para a história da Ribeira Quente.

Foi mais uma obra em que esteve em evidência a necessidade humana, desta vez do sexo oposto, gente desta localidade e extremamente necessitada de meios de subsistência.

A pedra par o paredão foi arrancada de uma pedreira que se situava ao cimo da propriedade do mesmo dono da escola.

Procurando possíveis curvas de nível para suavisar o acesso à pedreira, ainda assim o atalho feito não permitia, devido à sua muita inclinação, que fosse qualquer animal de quatro patas a acarretar as ainda brutas e pessadas pedras de amarração para o estaleiro que ficava situado no lugar do futuro paredão.

Sem alternativa, o mestre da obra veio a saber que determinadas mulheres da hoje "Rua do Padre António", podiam bem resolver esta situação.

Gente de forte compleição, embora faminta, essas mulheres habituadas a serem besta-de-carga, a troco de uma miséria, passaram a subir diariamente, vezes sem conta, o íngreme atalho da pedreira alcandorada no cimo das rochas, de onde traziam sobre o pequeno biscoito-rodilhão posto na cabeça, as citadas pedras que vieram a formar o paredão.

Porque ali perto não havia argila e a que havia só existia na zona do Velho cemitério, alternando de vez em quando o percurso, eram elas, as mulheres, que iam de cesto de dois alqueires à cabeça, buscar o desejado barro para a argamassa, subindo e descendo um caminho tão inclinado como o primeiro, mas já a distância de muitas centenas de metros!

Continuando a ser uma comunidade fechada por princípios de pouca comunicabilidade a que sempre esteve sujeita, e de certo modo muito dependente do seu guia espiritual, quer este fosse de demorada permanência ou não, já iam despontando alguns elementos na sua sociedade, que não sendo nem pescadores por tradição, nem trabalhadores rurais, se tornaram elementos de contacto em momentos de diálogo. Eram o começo de algo que havia de acontecer mais cedo ou mais tarde.

ANO DE 1931

Em Janeiro deste ano de 1931, veio substituir o Padre José Luiz Borges Vieira na paróquia, o Padre João de Medeiros, natural da Vila da Povoação.
Profundamente ciente das necessidades do povo da Ribeira Quente, como os seus antecessores, teve de procurar minimizar o sofrimento desta gente ainda na mesma situação de sempre - o padre era o directo e indirecto interlocutor entre as autoridades governativas e o povo, porque fazia parte das suas obrigações humanas.
No campo espírito-material, é no percurso do seu tempo como pároco, que o templo de São Paulo passa pelas maiores transformações desde a sua bênção e inauguração em 1917.
Foi alargada a sacristia do lado nascente, que era estreita, dando origem à, ainda hoje larga sacristia, seu acesso posterior e cave.
A bancada foi totalmente alargada por toda a nave da igreja, porque antes, além de ser modesta, só cobria parte da mesma.
A Capela-Mór não tinha cadeiral, mas foi feito, como também foi feito um altar do lado epistolar - que só veio a receber a sua primeira imagem no ano de 1949.
Além da escadaria de acesso à sacristia, exteriormente foi feito o revestimento em argamassa de cimento e areia dos dois alçados laterais, porque, até àquela altura, as suas paredes não eram revestidas mas sim, na linguagem do povo, paredes cruas.
Segundo documentação comprovativa, foram os pescadores, desta vez com meio quinhão dos barcos, embora fossem bastante pobres, quem pagou estes empreendimentos, à medida que, por ironia, o povoado ia empobrecendo devido ao crescimento da população e à falta de recursos de subsistência de que o lugar padecia.
Nessa altura a população da Ribeira Quente já era superior à da do Faial da Terra e da de Água Retorta mas ainda não possuía quaisquer caminhos de acesso para fora do povoado, além dos rudimentares já citados; nem água potável nem iluminação pública, embora a central produtora lhe ficasse logo mais acima na "Ribeira dos Tambores"!
Só tinha uma escola primária improvisada numa casa particular do lado nascente da ribeira e, já no começo da falésia da "Ponta do Garajau", um posto de correio também improvisado num pequeno estabelecimento comercial junto do litoral, cujo vencimento do seu proprietário era uma pequena percentagem que lhe era concedida pela venda de selos; mas cabia-lhe também, por imposição, ter de fazer chegar o saco do correio, ou mala do correio, como o povo a chamava, à curva da estrada onde nascia o "Caminho do Redondo", a fim de ali apanhar a carreira regular que por ali passava todas as manhãs, por volta das sete e pouco da manhã.
Esse doloroso trabalho era feito por uma pobre mulher casada, com filhos, a troco de meia dúzia de escudos mensais, visto que seu marido, pescador (António Fanha ou António Povoação), nem sempre tinha sorte no mar.
Foi nesta situação de atrofiamento e miséria que o povo da Ribeira Quente foi atingido por uma das maiores catástrofes sísmicas de sempre.
A 5 do mês de Agosto do ano seguinte, 1932, toda esta ilha de São Miguel foi sacudida, devido a um abalo de origem tectónica - falha Açores-Gilbraltar, hoje muito conhecida pela ciência - de tão forte magnitude, que fez ruir, a partir do estremo de Ponta Garça, todas as casas da Lomba do Cavaleiro, muitas da Lomba do Carro e outras na faixa entre aquela localidade de Ponta Garça e Faial da terra. A Ribeira Quente, embora de permeio, estatisticamente não é mencionadaembora tivesse sido bastante atingida.





1917 A 1928

Embora se não saiba com rigor qual seria o número populacional da Ribeira Quente na altura da bênção e inauguração do seu terceiro templo, podemos aceitar a ideia de que a mesma não seria inferior a mil e setecentas pessoas, visto que, aparecendo pela primeira vez documentalmente uma estatística abrangente que inclui o lugar da Ribeira Quente, a mesma lhe dê nesse ano de 1864 uma população de 1065, para depois, já no ano de 1900 lhe ser dada uma população de 1463 pessoas. Por isso é lógico que dezassete anos depois, no ano da inauguração, no mínimo o número de pessoas acima relativamente mencionadas fosse uma aproximação da verdade.
De 1911 a 1949 não existem números estatísticos que mencionem qualquer censo acerca da Ribeira Quente, visto a população desta localidade estar anexada à da Igreja Matriz da Povoação, por ter passado a ser parte integrante da mesma depois de perder o direito de ser paróquia autónoma. Por isso, estatisticamente falando, só no ano de 1950 aparece oficialmente a Ribeira Quente já feita freguesia e com uma população de 2126 almas.
Fosse como fosse, a igreja então ao tempo inaugurada naquele ano de 1917, foi definitivamente dimensionada para o futuro, visto o lugar da Ribeira Quente por justa posição geográfica, ser um lugar encravado e financeiramente limitado.
No percurso da sua existência até ao presente, este templo de São Paulo jamais foi alterado no seu aspecto de igreja de uma só nave. Só as suas duas sacristias laterais sofreram algumas transformações que vão ser mencionadas.
Com um alçado principal alegre e leve porque a sua cantaria é pobre, no entanto a sua situação sobranceira dá-lhe um aspecto de imponência.
A sua torre sineira antes era um pequeno museu do passado porque encerrava dentro de si um grande pedaço de história. Esta história encontra-se agora com os Sinos em exposição no Baptistério da Igreja.
O Sino que anteriormente estava do lado nascente, quer pelo seu aspecto de fabrico tosco muito rudimentar, quer pela corrosão causada pelas salseiradas do mar, logo nos mostra ter sido o único sino que veio da primitiva Ermida de São Paulo, e que tudo indica ter sido fabricado nesta ilha.
O Sino que anteriormente estava na janela sineira do lado poente confunde-nos por serem reais mas enigmáticos os dizeres que nele se lêem em nítido relevo:
"SSmo. DE SAO PAULO OFERECIDO POR I. (?) M. NOGUEIRA, BELLAS V FEZ LISBA 1489"
Na parte superior esterior tem o mesmo uma imagem do Apóstolo São Paulo em relevo bastante vivo.
Oferecido pela mesma família que ofereceu os outros dois sinos em datas bastante posteriores, tudo nos leva a crer que a data de 1489 foi uma ESMERALDA de enfeite apropriado.
O sino que estava do lado sul, que é o mais rico no tamanho e nos dizers, ao cimo, na parte virada para o interior da torre, tem uma quadrícula moldada e no centro da mesma em letra relevante:
MANUEL ANTONIO MARTINS O FES
e logo mais abaixo:
CONSTRUIDO EM LISBOA NA FÁBRICA DA RUA AUGUSTA NO ANO DE 1839
JOZE MATHEUS NOGUEIRA O MANDOU FAZER PARA A IGREJA DE SÃO PAULO DA RIBEIRA QUENTE
O mais pequeno dos sinos, o que estava na janela do lado norte tem na parte superior exposta uma Cruz da Natividade bastante relevante, mas os dizeres não são, como os dois anteriores, em relevo mas sim gravados na parte baixa do mesmo:
JOZE MATHEUS NOGUEIRA O MANDOU FAZER EM 1854 P'A IGREJA DE S. PAULO NA RB' QUENTE
Estes dados que se lêem nestes três sinos que pertenceram à segunda Igreja de São Paulo e hoje fazem parte do património da igreja actual, não só identificam o seu benemérito doador, como marcam a data do começo de uma grande viragem na vida religiosa do povo da Ribeira Quente, porque, como já foi dito, depois da construção do primeiro Sacrário feito por doação desse proprietário e médico José Mateus Nogueira, o lugar da Ribeira Quente se emancipou ou soltou das peias que o travavam a Ponta Garça, devido à sua subserviência religiosa.
Depois de ter paroquiado a Igreja de São Paulo durante nove anos, o seu maior mentor, o Padre Ângelo Amaral partiu para a América do Norte onde permaneceu e veio a falecer. Do livro de Assentos desta paróquia e da autoria de um pároco que veio a falar dele decorridos que eram catorze anos, lê-se:
"... a quem se ficou devendo o seu levantamento (da Igreja), pois era daqueles de quem se costuma dizer - 'antes quebrar que torcer' - arrostando contra todas as dificuldades etc.",
conseguiu não só levantar este templo, como buscou para o seu interior aquilo que então o povo da Ribeira Quente lhe não podia dar e que é sempre uma das obras mais dispendiosas de um templo: o retábulo.
Na realidade, sabendo o Padre Ângelo que, depois da implantação da República os energúmenos haviam despejado a Igreja da Graça de Ponta Delgada para ali implantar um tribunal, este sacerdote ultrapassou muitos obstáculos e conseguiu que o retábulo desta igreja fosse oferecido à da nova igreja que depois veio a inaugurar, como já foi dito, levando da mesma, também uma imagem de Nossa Senhora do Leite, a de Santa Teresinha, a de São Pedro Gonçalves - que havia sido Patrono dos pescadores da Calheta e de Santa Clara, que se desavieram por causa desta imagem quando a mesma foi trazida do seu primitivo altar, que existia naquela que veio a ser a Igreja de São José de Ponta Delgada, para a da Graça - assim como as imagens de Santo Agostinho, Senhor Morto, São João Evangelista e São Nicolau de Tolentino.
Para substituir o Padre Ângelo veio da mesma ouvidoria o Padre José Luiz Borges Vieira, natural de Água de Pau, que na altura deixou de ser pároco da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios da Lomba do Loução.
Foi no seu tempo que foi feita a balaustrada que circunda o adro da actual igreja da Ribeira Quente, como foi no tempo deste que se tentou construir uma casa paroquial que não havia nesta localidade, a qual, por razões óbvias, nunca foi além de meias paredes.
Sem ser a forte vertente mar e igreja, mais nada constava acerca da Ribeira Quente, até que, no ano de 1927 veio a ser quebrada esta monotonia, com a construção de uma pequena muralha de protecção que partia da zona chamada "Prédio das Vieiras", até ao porto. Simples mas útil não como muralha de protecção, mas sim porque além dessa obrigação, permitia que antes de se entrar nas areias da praia que o mar ia repondo, houvesse umas dezenas de metros de caminho propriamente dito.
No ano seguinte, 1928, uma forte tempestade cortou quase totalmente este acesso, por isso foi aberto o caminho que o povo passou a chamar de estrada, conforme consta de um extracto paroquial:
"ANO DE 1928 - Neste ano há a registar nesta freguesia a abertura da nova estrada junto à rocha desde o princípio da freguesia até à igreja paroquial porque o mar já quase levou o antigo caminho junto à praia".
Já eram então decorridos, nessa altura, mais de 260 anos desde que a Ribeira Quente se havia tornado povoado, conforme consta dos apanhados históricos já mencionados acerca da suposta visita feita por D. Frei Lourenço de Castro. No entanto este lugar ainda não era freguesia.
As palavras acima referidas, "nesta freguesia" e "nova estrada", foram uma simples expressão então adequada para mencionar o acontecimento.
A "nova estrada", não era sinónimo de haver outra estrada, porque até àquela altura só havia sido feito (não pelo município), o pequeno paredão que ia da zona do actual porto para poente, o qual acabava, como já foi dito, no "Prédio das Vieira" ou logo pouco mais além da Rua Direita, e que servia só para pedestres antes de entrar na praia a parte da barreira composta por terras que o mar ia deixando e o povo da zona da Ribeira pisava para poder atingir a sua igreja.

ORIGEM DAS FESTAS DE SÃO PAULO


No livro do Tombo da igreja paroquial da Ribeira Quente encontra-se registada a: «notícia circunstanciada da estadia do Senhor Bispo nesta freguesia», por ocasião de uma visita pastoral que integrou a Bênção da Nova Igreja, Festa de São Paulo, ordenação de Presbítero e Unção de Via-Sacra, nos dias 22,23 e 24 de Setembro do ano 1917.
A narrativa é bastante longa e pormenorizada, mas podemos sintetizá-la no essencial.
Começa por descrever a maneira solene como 12 embarcações bastante engalanadas foram à Vila da Povoação receber o Sr. Bispo D. Manuel Damasceno da Costa.
É recebido triunfalmente na Ribeira Quente com todos os requintes solenes de uma Visita Pastoral, que iniciava no dia 22 com a Bênção da nova Igreja Paroquial do Apóstolo São Paulo “que levara seis anos a construir”.
Na tarde daquele dia “foram administrados crismas a 600 pessoas.
No dia 23, Domingo, pelas 7 horas da manhã, sua Exa. Ordenou Presbítero ao Diácono Frederico Vieira Fernandes. Facto único na história desta Paróquia. Às 11 horas começou a festa em honra de São Paulo, que constou de Missa Solene abrilhantada pelo coro local e razoável número de Sacerdotes que reforçaram o dito coro.
A narração continua neste moldes: “ De tarde, em muita boa ordem, saiu a procissão em que foram conduzidos os andores de São Nicolau Tolentino, São Paulo, Nossa Senhora da Graça e Menino Jesus, culminando com Santo Lenho sob o pálio. A procissão encerrou com a presença de Sua Exa. Reverendíssima, ladeado de dois sacerdotes”.
Na segunda-feira, dia 24, pelas 7 horas, procedeu-se à Unção da Via-Sacra. Às 8:30 celebrou a sua primeira missa, o novo Presbítero ordenado no dia anterior.
Esta é a primeira narração recolhida sobre as festas de São Paulo integradas numa Visita Pastoral recheada das efemérides apontadas.
Não se sabe ao certo se outras festas em honra do padroeiro já se tinham celebrado anteriormente, mas é de supor que sim pelo facto da Visita Pastoral ter sido programada para o “ último fim-de-semana” de Setembro. As outras paróquias da Ouvidoria da Povoação, por serem mais antigas, já tinham preenchido os Domingos privilegiados de Verão. Escolheram esta data pela vantagem que trazia em coincidir com o tempo das colheitas e também com o quase terminus da safra das pescas do atum e bonito.
Nessa altura já haviam alguns dinheiros arrecadados da pesca dos tunídeos e as frutas e cereais recolhidos eram abundantes. Aqui, no tempo, existiam pomares de peros, maçãs, araças, uvas e seus vinhos novos que oram faziam montões ora preenchiam numerosos potes e barris de vinho doce para arrematar em favor das festas. Tudo invocava fartura ao serviço da Festa.
Os tempos mudaram com o significativo abandono das terras devido ao forte surto migratório que se alongou até aos nossos dias; com o aparecimento das festas populares do “Chicharro”, implantadas no coração do mês de Julho, época mais propícia à presença dos emigrantes em férias e pela afluência dos veraneantes e frequentadores acérrimos da praia.
Devido a tão consideráveis mudanças foi lançado inquérito à população, se perante vantagens de monta gostariam de mudar as festas de São Paulo para o mês de Julho. Foram peremptórios em concluir que “Não”!
Por isso, embora de Verão a Ribeira Quente seja muito visitada pelos seus emigrantes, devido ainda à tradicional índole acolhedora do seu povo, à confortante e agradável orla marítima, ao conjunto paisagístico do azul do mar, do verde da montanha e casario branco, ao feiticeiro porto e relaxante praia, às festas do Chicharro que concentram multidões, o certo é que o povo não quis abdicar da marcante data tradicional das festas de São Paulo, na última semana de Setembro.
Esta data permite não só alongar o período de “Verão Quente”, mas principalmente viver o valor da comunidade, cativando muitos que nos visitam por essa altura e com objectivo bem definido de celebrar a fé que nos une.
Hoje as festas de São Paulo tomaram proporções de Solenidade bem mais cativante, mesmo sob ameaças de equinócios de risco.


Padre Silvino Amaral

AUTO DA BENÇÃO DA IGREJA DE SÃO PAULO


Auto da Benção da Igreja de São Paulo, conforme consta na certidão que se encontra no livro do Tombo do arquivo paroquial:


Auto da benção da Egreja de São Paulo

da Ribeira Quente, feita por S. Excia Revma

o Snr D. Manuel Damasceno da Costa,

Bispo de Angra


Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil novecentos e dezasete, a vinte e dois de setembro, sendo chefe Supremo da Santa Egreja Católica Sua Santidade Bento XV e Bispo desta Diocese o Excelentissimo Senhor Dom Manuel Damasceno da Costa, parochiando esta freguesia o Padre Angelo de Amaral, procedeu-se á benção da egreja parochial do Apostolo São Paulo d'este logar da Ribeira Quente, cuja construção foi iniciada em mil novecentos e onze, sendo então parocho d'esta freguesia o Reverendo Jacinto Moniz Borges de saudosa memoria e a quem se devem bons esforços para a realização d'esta obra.

E porque ela representa a fé de um povo pouco numeroso, mas ardente na sua piedade animada pelas aptidões excepcionaes do seu actual parocho dignou-se Sua Excelencia Reverendissima o Senhor Bispo d'esta Diocese vir pessoalmente honrar o acto solene da benção da dita egreja, sendo Ele officiante e tendo por assistentes numerosos eclesiasticos e a comparencia de muitas outras pessoas d'este e doutros logares.

Depois de executados todos os actos liturgicos proprios de tão solene cerimonia presidida por um Bispo, foi celebrada uma missa solene na qual officiou o Reverendo Prior e Ouvidor Eclesiastico da Vila do Nordeste Padre José Lucindo de Souza Graça e pregou o Reverendo António Furtado de Mendonça Vigario do Pico da Pedra, havendo depois Solene Te - Deum em conclusão de tão solene festividade.

E para que tudo conste de futuro fique aqui registado embora por modo sumario que até ao presente estão gastos na edificação da egreja que hoje se benzeu cerca de quinze contos de reis, os quais se devem na sua totalidade á generosidade dos habitantes d'este logar e na sua maior parte á classe maritima que é a que com maior entusiasmo tem concorrido para a fundação da sua egreja.

E para que a todo o tempo conste se lavrou o presente auto que será assinado por Sua Excelencia Reverendissima o Senhor Bispo d'esta Diocese, por todo o Clero presente e mais pessoas que o possam fazer e por mim Dionisio Moniz de Almeida Presbitero e Cura na Matriz da Vila da Povoação, escrivão ecclesiastico da Ouvidoria desta comarca, que o subscrevi.


Egreja parochial do Apostolo São Paulo do

logar da Ribeira Quente, 22 de Setembro de 1917.


+ Manuel Damasceno da Costa

Conego Jose Moniz Pacheco Bettencourt

P. Jose Lucindo de Souza Graça

Angelo d'Amaral

Antonio Furtado de Mendonça

Francisco de Medeiros Tomaz

Ernesto Jacinto Raposo

Padre Jose Jacinto Botelho

Padre José Cabral Lindo

Padre Jose d'Paiva Amaral

Padre Luiz Augusto Pacheco

Padre Antonio Furtado d'Andrade

Padre Manuel Teixeira

Diacono Frederico Vieira Fernandes

III IGREJA DE SÃO PAULO


Erecto sobranceiramente na elevação da zona da Ponta da Albufeira, desde então passou a ser o maior e mais relevante edifício de sempre, da Ribeira Quente, de cujo seus filhos muito se orgulharam.

Como prova de reconhecimento e agradecimento de tão relevante empreendimento, porque o povo desta localidade sempre havia sido profundamente pobre, foi o então Bispo dos Açores D. Manuel Damasceno da Costa quem veio benzer e inaugurar esta nova Igreja de São Paulo.

Visto não haver outro caminho de acesso que não o velho "Caminho do Redondo", que era simplesmente um atalho, teve D. Manuel de ir primeiro à Vila da Povoação a fim de ali tomar um barco de pesca de boca aberta e a remos, da Ribeira Quente, que ali o foi buscar.

Para que não houvesse ofensas, ajuizadamente foi feito de pleno acordo um sorteio para ver a qual arrais caberia transportar tão ilustre chefe da Igreja nos Açores. Coube ao mestre de barco Manuel Linhares de Deus Abarrota tamanha honra.

Partindo este barco acompanhado de outros embandeirados, por volta das oito horas da manhã, uma hora depois chegava ao Porto Velho da Vila da Povoação, onde aguardaram Sua Excelência o Bispo D. Manuel.

À chegada do Bispo à praia, que era também o porto da Ribeira Quente, ali o esperavam todos os convidados e toda a população desta localidade, novos e velhos, os quais jamais até então tinham visto tão grande representante da Igreja.

Sob os acordes de uma banda de música das Furnas, desembarcou o Bispo D. Manuel que se foi paramentar numa casa daquele litoral, seguindo depois em procissão ao longo dessa praia (único caminho na altura). Depois subiu o íngreme caminho que o levou à igreja engalanada, onde se deu começo ao Auto da Igreja de São Paulo.